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Varejo brasileiro começa a usar ‘lockers’

Comprar online e retirar a encomenda em um armário instalado em ponto estratégico da cidade. Assim funciona a entrega por meio dos chamados lockers, modelo popular nos EUA e na Europa, que começou a ganhar fôlego no Brasil neste ano. Na experiência internacional, a ideia é reduzir custos de frete e oferecer mais conveniência a cliente. Por aqui, as varejistas têm um incentivo a mais para adotar a tecnologia: driblar as dificuldades impostas pela falta de segurança pública, que muitas vezes impede que o produto chegue diretamente à casa do cliente. O problema é particularmente grave no Rio, onde, segundo um estudo da Firjan, os 10.599 roubos de carga registrados em 2017 causaram um prejuízo de R$ 607,1 milhões.

A expectativa do setor é que a modalidade de entrega deslanche no país após a Via Varejo, dona das Casas Bahia e do Ponto Frio, iniciar seu projeto piloto em São Paulo. A empresa instalou quatro armários na capital paulista e planeja para o mês que vem estrear uma operação semelhante no Rio. A ideia é que os pontos de coleta fiquem em pontos estratégicos da cidade. Em São Paulo, a varejista opera em parceria com os postos Ipiranga, que abrigam os armários. Para retirar a encomenda, basta informar um código no terminal de autoatendimento. “Como os lockers foram recém-implementados em quatro postos de São Paulo, ainda estamos em fase piloto do projeto, mas temos a previsão de expandi-lo para outras regiões já no próximo mês. O que está definido é que o Rio de Janeiro será a segunda cidade que receberá o serviço e a velocidade dessa extensão vai depender da maturidade dos testes que estamos realizando”, explica Flavio Salles, diretor de multicanalidade da Via Varejo.

Em dezembro, reportagem do GLOBO mostrou que cerca de 13% das encomendas dos Correios que tinham como origem ou destino o Estado do Rio precisaram de algum tipo de medida adicional de segurança, como escolta armada, de acordo com dados da empresa de logística Intelipost. Na média nacional, esse percentual é bem menor, de 1,6%. No ano passado, o consumidor carioca se acostumou a ouvir a expressão “CEP do inferno” — regiões onde nem os Correios nem transportadoras privadas entram, por causa do risco de violência.

Segundo especialistas, a ideia é que os lockers ajudem a mitigar esses entraves. A modalidade é um desdobramento do sistema de clique e retire, em que é possível comprar online e pegar o produto em uma loja física. A diferença é que os armários ampliam os possíveis pontos de coleta para além da rede de lojas. Postos de gasolina, shopping centers, estações de metrô e outros pontos de passagem são potenciais locais de retirada.

“Os lockers são tendências para implantar o omnichannel (multicanal, integração entre operações online e físicas), independentemente da questão da segurança. É uma ferramenta que ajuda as operações de e-commerce a atuarem com entrega de forma descentralizada e mais barata. No e-commerce, o que tem de mais caro é a última milha até a porta do cliente. Para a gente, no Brasil, além de tudo é uma solução para os consumidores que vivem em regiões com restrição. O locker é uma alternativa interessante de entrega para qualquer cidade que tenha zona de risco”, avalia a especialista em varejo Ana Paula Tozzi, diretora executiva da AGR Consultores.

Magazine Luiza e Netshoes interessadas, diz executivo

Eduardo Peixoto, diretor de produtos e qualidade da empresa de logística Total Express, concorda. Normalmente, clientes que moram em endereços com restrição precisam buscar a encomenda em um posto dos Correios em um bairro próximo. O problema é que as agências só funcionam em horário comercial, o que é uma barreira para quem precisa fazer a coleta após o trabalho, por exemplo.

“(O locker) é uma alternativa não só para o Rio. A gente tem diversos CEPs em que não consegue entrar em cidades como São Paulo e Rio, em várias cidades. Nem sempre a opção de uma agência próxima é uma solução viável”, afirma o executivo. A Total é a distribuidora parceira da Via Varejo para o projeto piloto de lockers. Segundo o executivo, no entanto, a exclusividade com a empresa se restringe ao projeto piloto. Ele conta que já há interesse de outras varejistas na modalidade. “A gente começou com uma exclusividade com a Via Varejo, apenas para o piloto. Já tem outras empresas como Magazine Luiza, Netshoes e diversas outras interessados”, afirma Peixoto.

Procurada, a Magazine Luiza informou que não opera com lockers, mas usa o sistema de clique e retire nas cidades onde tem loja. De acordo com o último relatório para investidores da companhia, referente ao terceiro trimestre, os pedidos de entrega pela modalidade cresceram 250% de janeiro a setembro. A Netshoes também não revelou planos de usar os armários. A empresa — que não tem lojas físicas — destacou, no entanto, a parceria que tem com os Correios, que permite que seus clientes retirem produtos comprados pela internet em 6,7 mil lojas.

A Inpost opera os armários da Via Varejo

Apesar de outras varejistas não confirmarem planos, o setor de logística já se movimenta para atender mais empresas. A Inpost, que opera os armários usados pela Via Varejo, planeja investimentos de até R$ 30 milhões nos próximos anos (sem especificar o horizonte de tempo). A empresa faz parte de um grupo polonês multinacional que opera 7 mil terminais em 22 países. No ano passado, a companhia experimentou o modelo com outras marcas, como a fabricante de produtos eletrônicos Canon e a joalheria Pandora Joias. Mas aposta mesmo é na entrada dos grandes nomes do setor para ver o segmento crescer. “Estamos há um tempo tentando penetrar no mercado brasileiro. O Brasil demorou mais tempo (para adotar a tecnologia), mas a dinâmica não é diferente de outros países. A França é um exemplo. Demorou uns dois anos, mesmo com uma cultura forte de comprar online e retirar na loja. Quando o primeiro nome grande adotou, foi um efeito dominó”, conta Marco Beckowski, sócio da Inpost do Brasil.

Consumidores ainda não estão prontos, diz especialista

Segundo ele, o modelo precisa de volume para se viabilizar tecnicamente. Hoje, em projetos experimentais, a encomenda não sai mais barata para o consumidor. Isso deve ocorrer quando varejistas conseguirem concentrar muitas encomendas em poucos pontos de coleta, reduzindo o custo da entrega. “Só vai conseguir ser mais barato quando tiver volume. Senão, vai ter um custo extra da entrega. Se você só faz uma entrega no locker, vai ter o mesmo custo da entrega em casa, acrescida do custo do locker. A gente acredita que os grandes vão dar volume”, afirma.

Concorrente da Inpost, a carioca Easypost também aposta no crescimento do mercado. A empresa é parceira de varejistas como a Decatlhon e outras empresas de nicho. Hoje, opera 20 terminais no Rio e em São Paulo. Na capital fluminense, são dez, instalados em locais como shoppings e supermercados. A empresa aguarda agora a entrada de 115 novas lojas em seu sistema, por meio de uma parceria com uma empresa de logística. “O plano para 2018 é expandir para centenas de terminais no Rio e em São Paulo”, afirma João Mendes Neto, diretor-executivo da Easypost.

Para Gabriel Drummond, diretor da Intelipost, empresa de logística, o modelo tem potencial, mas o mercado precisará se adaptar. “Acho que tem dois empecilhos. Um deles é que os consumidores não estão acostumados. Além disso, as lojas, as transportadoras não estão prontas, e estamos falando de um investimento grande para implantar. Mas uma vez implantado, vai ser muito conveniente para algumas pessoas”, avalia.




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