Concorrência da internet e das plataformas de streaming, preço alto e serviço ruim são os principais motivos da queda brusca da televisão paga

Inventada em 1925 e trazida para o Brasil no final dos anos 40, a televisão tornou-se rapidamente a queridinha do povo brasileiro. A popularização massiva do futebol, a revelação de artistas do calibre de Milton Nascimento, Elis Regina e Djavan através dos programas de calouros e a cultura das telenovelas são apenas alguns exemplos da importância do aparelho no País. Nos anos 90, no entanto, a televisão passou por uma revolução com a chegada da TV paga.

A chegada das operadoras de TV paga não só aumentou o número de opções do brasileiro, mas também mudaram a forma em como consumimos conteúdo. O futebol nacional ganhou a concorrência dos campeonatos europeus e das ligas americanas, os shows de calouros e programas de auditório competiam com formatos como “American Idol” e “The Voice” e as novelas ganharam a companhia das séries norte-americanas e de um número cada vez maior de filmes de Hollywood. Além disso, canais segmentados, principalmente para o público infantil, também revolucionaram a maneira como assistimos televisão.

A TV aberta perdeu um pouco de espaço, mas, assim como o rádio antes dela, sobreviveu. Agora, uma nova revolução na produção de conteúdo está mudando as estruturas do entretenimento e as maiores ameaçadas por tudo isso são, justamente, as empresas de TV paga.

Enquanto o rádio segue sendo imbatível nas pequenas cidades do interior e em cada carro das grandes metrópoles e a televisão aberta respira com a conversão digital e o formato gratuito, as fornecedoras de canais paga vão perdendo cada vez mais espaço dentro dos lares brasileiros. Os motivos? A internet, as plataformas de streaming e o próprio ruim atendimento das operadoras.

O dilema das operadoras de televisão começa pelo próprio serviço oferecido e pela definição do público-alvo. Novidade nos anos 90 e com conteúdo bastante exclusivo, o TV paga mirou incialmente os mais ricos, podendo cobrar um preço caro pelo seu serviço. Com a passagem do tempo e o desenvolvimento tecnológico, eles conseguiram oferecer serviços mais baratos, fazendo vendas casadas com serviços de telefonia e provedores de internet, mirando, com sucesso, as classes B e C.

Hoje, no entanto, o conteúdo dos canais por assinatura é longe de ser único e o preço ainda é salgado em comparação à outros serviços. O pacote básico de canais da Net-Claro, por exemplo, custa R$ 89,90 por mês, enquanto o da Vivo TV sai por R$ 114,90. A assinatura mais básica da Netflix, plataforma mais popular de streaming no Brasil e no mundo tem mensalidade de R$ 19,90 enquanto a da Amazon Prime fica em R$ 14,90.

Preferido entre as crianças e adolescentes, o YouTube produz inacreditáveis 400 horas de conteúdo a cada minuto, segundo dados da própria empresa, que os fornece do forma gratuita. Enquanto isso, apostando cada vez mais para conteúdos populares e conseguindo os direitos de algumas séries e filmes de sucesso internacional, a TV aberta segue mantendo seu público fiel.

A concorrência mais barata e com mais conteúdo, somada à crise econômica no Brasil fez com que as operadoras de televisão perdessem 787.513 contratos entre maio de 2017 e maio de 2018, uma queda de 4% do seu público total. Os números de audiência também são desanimadores. De acordo com o Painel Nacional de Audiência, os canais à cabo caíram de 21,1% do total de telespectadores para 19,1% entre janeiro e agosto de 2017. Os 2% perdidos foram para os canais abertos.

A TV por assinatura perde espaço no país que, segundo levantamento feito pela Motorola Mobility é o sexto que mais assiste televisão no mundo. O brasileiro passa, em média, 20 horas por semana na frente do aparelho televisor, atrás apenas de Índia, China, Malásia, Turquia e Estados Unidos. Apesar disso, 56% dos brasileiros já admitiram que preferem consumir conteúdo on-line, em pesquisa feita pelo Google.

Grande termômetro das tendências culturais do ocidente, os Estados Unidos mostram que a mudança é real. Segundo o instituto MoffettNathanson Research, meio milhão de norte-americanos cancelaram seus contratos com empresas de TV paga apenas nos três últimos meses de 2017. A mesma pesquisa estimou que 2.2 milhões de consumidores assinaram com as cinco plataformas de streaming mais populares do país.

Além dos serviços que oferecem filmes e séries, que já se popularizaram no Brasil, as grandes ligas esportivas norte-americana também oferecem pacotes de streaming, onde os clientes podem optar por acompanhar apenas um ou mais times ou ter acesso à todos os jogos. O conteúdo jornalístico também está cada vez mais se voltando para a internet, oferecendo notícias diárias de graça em formatos de texto, vídeo ou podcast.

Se a maré de acontecimentos parece não estar à favor das operadoras de televisão paga, elas mesmas ainda são as maiores responsáveis pela crise no setor. Novidades como serviços menores de streaming dentro do próprio pacote televisão e a possibilidade de gravar os programas de graça poderiam dar fôlego às empresas, mas é o atendimento ruim prestado por elas que afasta ainda mais os clientes.

A insatisfação dos telespectadores também pode ser traduzida em números. A Vivo é a “vice-campeã” de reclamações no site Reclame Aqui nos últimos 12 meses, seguida de perto pela Net-Claro. No Procon de São Paulo, é a Net-Claro que leva o “título”, com a Vivo na segunda colocação. O grupo Sky também aparece na lista como a oitava empresa que mais recebeu reclamações em 2018.

A tendência volta a se confirmar quando olhamos para os Estados Unidos, com a Comcast, uma das maiores fornecedores norte-americanas de TV paga sendo eleita como a 15ª empresa mais odiada pelos consumidores.

Em entrevista ao iG Gente, Glauber Alvarenga Ribeiro, Especialista em Proteção e Defesa do Consumidor do Procon falou sobre os principais problemas dos clientes com as operadoras de televisão.

“Os maiores problemas registrados são: cobrança indevida (valores não reconhecidos em fatura), alteração unilateral de contrato (diminuição ou retirada de canais sem prévia informação), vício de qualidade (sinal falho ou ruim) e não cumprimento de oferta”, explicou.

Ainda segundo o especialista, as reclamações dos clientes “deveriam” mudar o atendimento das empresas. “São um sinal de que alguma coisa no serviço não está sendo prestada de forma adequada”, explicou. O alto número de reclamações no Procon também é um sinal que as centrais de atendimento dessas empresas não estão resolvendo os problemas com eficácia.

Sem a fidelidade dos consumidores, que cada vez mais abandonam seus contratos, as empresas de TV paga agonizam no Brasil e no resto do mundo. Com um serviço que fica mais obsoleto a cada ano, mais carro que as alternativas e com um método de atendimento que não funciona, as operadoras precisam rever seu modelo de negócio urgentemente para não virar história.

Fonte: IG Gente

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